A cotação do dólar em alta cria nova perspectiva de exportação para os produtores de soja e milho, ao mesmo tempo em que aumenta a preocupação com os custos de produção das próximas safras, segundo o analista de mercado Ronaldo Fernandes, entrevistado no programa Agro é Massa, da Massa FM.
Fernandes atribui a mudança ao resultado das eleições recentes, que provocou revisão das expectativas econômicas no país. Essa revisão repercutiu nos principais indicadores financeiros – taxa de câmbio, juros e cotações de commodities agrícolas – gerando um ambiente de maior volatilidade para o agronegócio.
Com a desvalorização do real frente ao dólar, a competitividade da soja brasileira no mercado internacional ganha impulso. O Brasil e os Estados Unidos disputam compradores, sobretudo a China, e a variação cambial pode gerar movimentos divergentes entre os preços praticados no mercado interno e na Bolsa de Chicago.
Impacto cambial
Em entrevista, Fernandes explicou que, quando o real perde valor, a soja produzida no Brasil fica mais barata para quem compra em dólares. “Se o dólar subiu no Brasil, quer dizer que a soja brasileira ficou mais barata para quem compra em dólar. Porque o real desvalorizou”, afirmou o analista.
Ele destacou ainda que os preços de referência no porto avançaram de R$ 140 para R$ 148 por saca, para entrega em fevereiro e pagamento em março. Essa elevação nas cotações futuras pode indicar uma tendência de alta, embora não garanta que o mesmo aumento será repassado integralmente ao preço à vista, já que fatores como prêmios de exportação e condições de negociação também influenciam.
Fernandes pontua que a alta dos contratos futuros pode representar uma oportunidade para produtores que ainda precisam negociar parte da produção. Contudo, recomenda cautela, pois o mercado pode sofrer correções após movimentos mais intensos, exigindo atenção ao timing das vendas.
Desafios de custos
O analista alerta que a mesma pressão cambial que favorece a exportação pode encarecer insumos essenciais para a produção agrícola. Muitos produtores ainda precisam fechar compras de fertilizantes, defensivos e outros itens para as etapas posteriores da safra. Caso o dólar permaneça elevado, esses gastos tendem a subir, reduzindo a margem de lucro.
“Na crise, acaba gerando oportunidade. Toda crise gera oportunidade. E essa crise, por irônico que pareça, gerou oportunidade para o agro no primeiro momento, que é preços mais altos de soja e preços mais altos de milho”, disse Fernandes, ressaltando que o cenário exige planejamento financeiro rigoroso para evitar surpresas nos custos das próximas safras.
Além da questão cambial, Fernandes apontou que as contas públicas e a condução da política fiscal podem influenciar o comportamento dos investidores, afetando juros futuros e o acesso ao crédito rural. Uma eventual continuidade da pressão sobre o dólar e os juros pode elevar o custo do financiamento, impactando diretamente a capacidade de investimento dos agricultores.
Em síntese, o agronegócio brasileiro deve monitorar de perto as cotações do dólar, as variações de preço dos grãos e as condições de crédito. O ganho de receita no curto prazo, impulsionado pela valorização da soja e do milho, precisa ser ponderado com o aumento dos custos de produção, de modo que os produtores possam ajustar suas estratégias de comercialização e manter a sustentabilidade financeira nas próximas safras.








