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Dia do Poeta: autores que moldam a literatura de Mato Grosso do Sul

No Dia do Poeta, conheça autores sul-mato-grossenses que transformam histórias, paisagens e experiências em versos - Colagem/Fotos da Internet

O Dia do Poeta, celebrado nesta terça-feira (20), oferece uma janela para conhecer escritores que ajudam a construir a identidade cultural de Mato Grosso do Sul. Com estilos e trajetórias distintas, autores ligados ao estado transformam paisagens, experiências pessoais, acontecimentos históricos e questões sociais em versos que atravessam gerações.

Entre os nomes que se destacam estão Manoel de Barros, conhecido pela linguagem inventiva e pela relação com a natureza pantaneira; Raquel Naveira, que aborda temas históricos, religiosos e regionais; Delasnieve Daspet, cuja produção dialoga com a cultura da paz e a diversidade linguística; e Henrique de Medeiros, que explora as inquietações humanas e a vida nas cidades.

Manoel de Barros nasceu em 1916 em Cuiabá, Mato Grosso, e passou parte da infância em Corumbá. Estudou em Campo Grande antes de seguir para o Rio de Janeiro, onde desenvolveu sua carreira poética. Ele faleceu em 2014 na capital de Mato Grosso do Sul. Sua obra, marcada por neologismos e imagens inusitadas, inclui títulos como O livro das ignorânças, Livro sobre nada, Compêndio para uso dos pássaros e Memórias inventadas. Manoel recebeu prêmios como o Jabuti e o Grande Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

Manoel de Barros valorizava elementos simples – pássaros, rios, árvores e objetos cotidianos – transformando a natureza em um universo poético próprio. Sua linguagem rompe com estruturas tradicionais, criando versos que ecoam no coração do Pantanal sul-mato-grossense.

Poetas do Pantanal

Os deslimites da palavra
Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas.

Raquel Naveira nasceu em 1957 em Campo Grande. Ela é poeta, escritora, professora e integrante da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras. Formada em Direito e Letras, construiu uma obra que aproxima literatura, história, religiosidade e cultura regional. Entre seus livros estão Abadia, Casa de Tecla, Guerra entre irmãos e Caraguatá. Nas duas últimas obras, a autora utiliza a poesia para abordar conflitos históricos, como a Guerra do Paraguai e a Guerra do Contestado.

Conceição dos Bugres
Conceição transformava madeira em bugres
Numa festa de suor, serragem, Cera de abelha.
Conceição, Afilhada de Nossa Senhora, Benta com o estigma de mulher pobre.
Conceição via o sol cair no lago do Amor Enquanto tomava mate Na cuia da morte.
Conceição, Vela consumida até o fim, Recendendo guavira.
Conceição Foi esculpir bugres na noite índia, Nos riachos puros onde fremem sapos.

Delasnieve Daspet é natural de Porto Murtinho. Ela é poeta, escritora, advogada e ativista cultural. Sua produção aborda temas como amor, memória, natureza e relações humanas, além de valorizar a diversidade cultural e linguística. Delasnieve preside a Academia Feminina de Letras e Artes de Mato Grosso do Sul e fundou a Associação Internacional de Poetas. Em 2024, ela foi indicada ao Prêmio Nobel de Literatura pela Academia Internacional de Escritores Brasileiros, sediada nos Estados Unidos, reforçando a presença de seu trabalho no cenário literário internacional.

A escritora também desenvolve produções em português e guarani, com a proposta de aproximar culturas e ampliar a circulação da literatura produzida no estado.

Voices da Diversidade

Olhos Negros
Na noite profunda de teus olhos
O leve voo da borboleta é como uma oração.
Que ressuscita no meu peito
Pétalas de orquídeas da saudade que se move
Em mim, entorpecendo meus sentimentos.
Te desenho com a tinta que sai de minha caneta,
Na poesia que transcrevo na minha agenda.
Vou presentear-me com um momento, apenas,
Da constância do sentir no meu tempo de poeta.

Henrique de Medeiros, natural de Corumbá, é escritor, jornalista, publicitário e editor. Ele é integrante da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e tem uma trajetória ligada à produção literária e a diferentes iniciativas culturais do Estado. Entre seus livros de poesia estão O azul invisível do mês que vem, Pirâmide de palavras, Que as dores se transformem em cores e Nadas em busca dos tudos, publicado em 2024.

mutações
lavo as mãos compulsivamente quero me limpar das sujeiras do mundo mas ele é mais impuro que as minhas mãos mentalizo o branco-alvo quero me livrar dos pensamentos dos homens seus arco-íris sempre mutam para poças de sangue sigo caminhos que decifro voo dos pássaros nas estrelas que despencam nas barbatanas das águas em vulcões submersos nas marcas das patas nos cometas que riscam mas são pontos de interrogação.

A poesia desses autores demonstra que a literatura produzida em Mato Grosso do Sul não se limita a um único estilo ou tema. Enquanto Manoel de Barros reinventa a linguagem a partir da natureza, Raquel Naveira aproxima poesia e história, Delasnieve Daspet valoriza a diversidade cultural e Henrique de Medeiros investiga as contradições da vida contemporânea. Suas vozes preservam memórias, registram paisagens e experiências e ampliam a compreensão do estado e de seus habitantes.

No Dia do Poeta, conhecer essas produções também significa reconhecer a diversidade de vozes que compõem a literatura regional. Seus versos preservam memórias, registram paisagens e experiências e ampliam as formas de compreender o estado e seus habitantes.

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