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Fé e política: o desafio de separar consciência e poder

A relação entre fé e política volta a ser tema de debate após publicação de texto de Frei Maurício Solfa no portal RCN67, que questiona como cristãos podem exercer sua cidadania sem permitir que nenhum poder humano domine a consciência.

O autor retoma o Evangelho, citando Mateus 22,15‑21, onde Jesus, diante da armadilha sobre o pagamento de impostos a César, responde: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. A fala indica que não se trata de separação absoluta, mas de reconhecimento de responsabilidades civis ao mesmo tempo em que se mantém Deus como soberano.

Em seguida, Solfa destaca Isaías 45,1‑6, onde Deus chama Ciro, rei da Pérsia, de seu ungido. Apesar de Ciro não ser israelita nem conhecer o Senhor como Deus da aliança, ele foi instrumento da libertação do povo exilado, demonstrando que a ação divina pode operar por caminhos inesperados, inclusive por meio de quem não compartilha a fé.

O texto enfatiza que a política influencia diretamente saúde, educação, trabalho, segurança e dignidade. Quando orientada pelo bem‑comum, torna‑se serviço à sociedade; porém a fé não pode ser usada como ferramenta de partidos nem a política para manipular crenças, pois nenhum líder ou ideologia pode reivindicar monopólio dos valores cristãos.

Separação consciente

O padre alerta para o risco de confundir a vontade de Deus com os interesses de grupos políticos. Ele afirma que a fé deve ser analisada à luz de critérios éticos, focando nos frutos das decisões governamentais – justiça, liberdade e dignidade humana – e não na identidade religiosa dos governantes. Assim, cristãos têm direito e dever de participar da vida política, mas precisam discernir o impacto real das propostas.

Solfa também aponta que pessoas de boa‑fé podem ter opiniões diferentes. Quando a divergência se transforma em ódio e desumanização, a convivência democrática e a fraternidade ficam ameaçadas. A fé, portanto, não deve legitimar interesses particulares nem silenciar questionamentos; seu compromisso social se manifesta no acolhimento dos pobres, na defesa dos direitos humanos, no combate à fome, na promoção da paz e na denúncia das injustiças.

Participação cidadã

Segundo o autor, a criação à imagem e semelhança de Deus garante a dignidade inerente a toda pessoa, independentemente de religião, condição social ou posição política. Fidelidade a Deus não implica fidelidade automática a um partido ou líder, mas coerência entre o Evangelho e as ações cotidianas. Dar a César o que lhe cabe significa assumir responsabilidades cívicas; dar a Deus o que lhe pertence significa reconhecer que nenhum poder está acima da dignidade humana, da justiça e do amor.

Frei Maurício Solfa, que ingressou no seminário dos Capuchinhos em 1999, foi ordenado padre em 2009, estudou Filosofia e Teologia, é psicanalista, possui pós‑graduação em Espiritualidade Franciscana e atualmente cursa pós‑graduação em Bíblia, conclui que o altar não deve se transformar em palanque político. A fé deve contribuir para uma sociedade onde direitos sejam respeitados e ninguém seja esquecido.

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