Na sessão ordinária da Câmara Municipal de Campo Grande, realizada nesta terça‑feira (27), o secretário municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep), André de Moura Brandão, foi convocado para prestar esclarecimentos sobre a operação tapa‑buracos que, segundo a população, não tem conseguido eliminar os buracos nas vias da capital sul‑mata‑grossense.
Durante a sabatina, Brandão reconheceu a dificuldade de estabelecer uma data precisa para a normalização da malha viária. “É difícil estimar uma data: o quando é o mais breve possível”, afirmou ao ser questionado sobre o prazo para a solução dos problemas. A falta de um cronograma definido tem sido apontada como um dos principais entraves para que os moradores acompanhem o andamento dos reparos.
Os parlamentares exigiram a divulgação diária dos locais atendidos e da quantidade de reparos realizados, a fim de garantir que a população possa monitorar a execução dos serviços. Brandão admitiu que o planejamento pode sofrer alterações diante de situações urgentes, mas reconheceu a possibilidade de organizar um fluxo de informações que permita a transparência dos trabalhos.
Ao final da sessão, o presidente da Câmara, Epaminondas Neto, conhecido como Papy, entregou ao secretário um Plano Emergencial de Recuperação Viária. O documento estabelece que, em até 72 horas, a Sisep deve apresentar um plano emergencial de manutenção das vias, indicando responsáveis, equipes e prioridades. Em sete dias, a Secretaria deverá publicar um mapa dos pontos críticos, das equipes mobilizadas e do cronograma de atendimento, incluindo trabalhos nos fins de semana e no período noturno quando tecnicamente viável.
Operação tapa‑buracos
Brandão explicou que a operação enfrentou dificuldades decorrentes da suspensão de contratos, da estrutura de trabalho da Secretaria, das chuvas intensas e do desgaste da pavimentação. Quando assumiu a Sisep, em junho, havia apenas três contratos vigentes. A operação “Buraco Sem Fim”, iniciada pelo Ministério Público Estadual (MPE) em maio, recomendou a suspensão do contrato de uma empresa investigada, o que resultou na interrupção de quatro frentes de trabalho. “Tivemos um decréscimo de 80% nos serviços”, destacou o secretário.
Para reverter a situação, a administração adotou medidas de gestão e, atualmente, 12 frentes atuam na operação, de segunda‑feira a sábado, cobrindo as regiões da capital. A estrutura inclui equipes próprias, contratos regionais e serviços executados por meio do Consórcio Central. Brandão afirmou que há recursos para manter os contratos vigentes e que não existem débitos com as empresas que estão operando no serviço. A ampliação das equipes para outros horários dependeria de recursos adicionais.
Os números apresentados revelam uma queda de 30,4% na quantidade de reparos realizados em 2025 em relação a 2024. Contudo, de julho a setembro de 2026, a área recomposta cresceu 56,6% comparada ao mesmo período de 2025, indicando recuperação parcial da capacidade de atendimento nas sete regiões de Campo Grande.
O secretário apontou as chuvas acima da média como um dos fatores que dificultam o trabalho, pois a umidade impede a aplicação adequada da massa asfáltica. Além disso, a idade da pavimentação é um problema estrutural: segundo referência do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), a vida útil média do asfalto varia de oito a dez anos antes de demandar manutenção preventiva. Em Campo Grande, cerca de 53% da malha asfáltica tem mais de 30 anos, o que explica por que o tapa‑buraco não resolve todos os problemas. Em vias com desgaste profundo, o reparo localizado tem vida curta e pode demandar recapeamento completo.
O vereador Carlos Augusto Borges, conhecido como Carlão, defendeu intervenções mais amplas nos bairros onde a pavimentação está comprometida, afirmando que “tem grandes bairros de Campo Grande que só o tapa‑buraco não resolve, tem que fazer o recapeamento”. Brandão citou ainda um caso no bairro Aero Rancho, onde uma empresa aplicou massa asfáltica em temperatura inadequada, provocando o retorno de 20 buracos no mesmo dia. A empresa foi notificada e recebeu prazo de 48 horas para refazer o serviço, demonstrando os mecanismos de cobrança existentes.
Plano emergencial
O Plano Emergencial de Recuperação Viária, entregue ao secretário, prevê a divulgação, em 15 dias, de um balanço dos serviços com localização, quantidade de reparos, fotografias e custos. Em 30 dias, a Secretaria deverá apresentar uma avaliação das metas e um plano de recuperação para os meses seguintes. A prestação de contas será semanal à comissão da Câmara, e um painel atualizado ficará disponível para consulta da população.
Entre as medidas previstas estão a criação de um protocolo de resposta às chuvas intensas, um programa de controle da qualidade do asfalto em cooperação com a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea), além da implantação de um Observatório Municipal do Asfalto. “É um pedido, uma exigência do Legislativo para que tenha sintonia com o que está sendo executado e transparência pela fiscalização parlamentar”, explicou o presidente da Câmara, Epaminondas Neto (Papy).
Paralelamente ao plano, 29 vereadores assinaram requerimento para a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a investigar a operação tapa‑buracos. A proposta, de autoria da vereadora Luiza Ribeiro, está na Procuradoria Jurídica da Câmara, que deverá emitir parecer sobre a viabilidade da investigação antes de encaminhar a medida para votação.
O vereador Professor Riverton, autor do requerimento que convocou o secretário, questionou se a Prefeitura dispõe de orçamento suficiente para concluir os reparos até dezembro, período de chuvas intensas. Brandão respondeu que há recursos para os contratos vigentes e reiterou que as 12 frentes de trabalho permanecem em operação. A discussão sobre a necessidade de um cronograma claro, indicadores de desempenho e transparência continua sendo o ponto central da pressão parlamentar.
Com o plano emergencial em vigor e a possível abertura de uma CPI, a expectativa é que a Secretaria de Infraestrutura apresente, nos próximos dias, o mapa dos pontos críticos e o cronograma de atendimento, permitindo que a população acompanhe de forma mais efetiva a evolução das obras. O acompanhamento semanal da comissão da Câmara e a publicação de um painel atualizado deverão garantir maior controle social sobre a qualidade e a rapidez dos reparos nas vias de Campo Grande.








