A Santa Casa de Campo Grande começou a colocar em dia o pagamento dos salários depois que parte dos recursos públicos esperados entrou nos cofres da unidade, mas a crise financeira que afeta o hospital continua ameaçando o atendimento à população.
Em nota divulgada na terça-feira (8), a direção informou que utilizou integralmente os recursos recebidos do Município de Campo Grande para iniciar a folha de pagamento na sexta-feira (4). O repasse do Governo do Estado, referente a uma parcela do contrato, chegou somente na terça, enquanto parte do dinheiro que deveria ser enviado pela União ainda está pendente.
Pagamentos iniciados
Os pagamentos estão sendo feitos de forma escalonada, começando pelos menores salários, segundo a própria Santa Casa. A instituição destacou que os atrasos salariais estão diretamente ligados à demora nos repasses públicos, que são fundamentais para manter as contas em dia. Mesmo com o início dos pagamentos, as equipes médicas contratadas como pessoa jurídica e autônomas permanecem há quatro meses sem receber.
Apesar da falta de remuneração, os profissionais mantêm os atendimentos de urgência e emergência. As cirurgias eletivas e as consultas ambulatoriais, entretanto, continuam suspensas, reduzindo significativamente a capacidade de atendimento da unidade.
Escassez de insumos
A escassez de medicamentos, insumos e materiais hospitalares tem travado cirurgias desde 29 de julho, quando a Santa Casa suspendeu procedimentos eletivos e atendimentos ambulatoriais. Na área de cirurgia cardíaca, a situação chegou a ponto crítico: o hospital não tem condições de receber novos pacientes adultos ou crianças que necessitem de procedimentos cardíacos.
A equipe responsável pela cirurgia cardíaca pediátrica, única do estado, sinalizou a possibilidade de deixar o hospital. Caso isso ocorra, crianças que precisarem desse tipo de atendimento terão de ser encaminhadas para hospitais de outros estados. Atualmente, a Santa Casa dispõe de apenas um kit de circulação extracorpórea, equipamento essencial para determinados procedimentos cardíacos, reservado para um paciente já internado.
O número de salas cirúrgicas também foi reduzido. Das 16 salas existentes em um dos setores do hospital, apenas seis funcionam durante o dia e três à noite. Com menos salas e equipes, há risco de internações mais longas e de encaminhamento de casos para outras unidades.
Diante do agravamento da situação, a Prefeitura de Campo Grande anunciou um aporte emergencial de R$ 4 milhões para a compra de insumos. O dinheiro deve ser usado para recompor estoques e ajudar a manter os serviços. Prefeitura, Estado e Santa Casa passaram a realizar reuniões técnicas diárias para acompanhar a situação e avaliar a possibilidade de ampliar temporariamente a oferta de vagas em outros hospitais que atendem pelo SUS.
A crise financeira da Santa Casa vem se arrastando há meses. Em 2025, o hospital já enfrentava forte desequilíbrio, com dificuldades para pagar fornecedores, profissionais e manter o abastecimento. O Ministério Público de Mato Grosso do Sul cobrou dos governos municipal e estadual e da própria instituição medidas para garantir a continuidade dos serviços pelo SUS. No fim de 2025, foi firmado um acordo de R$ 54,1 milhões para regularizar a situação financeira e quitar débitos com profissionais.
Mesmo com o acordo, os problemas ressurgiram em 2026. Nas últimas semanas, o Ministério Público promoveu reuniões emergenciais com representantes da Santa Casa, do Estado e do município diante do risco de falta de medicamentos, gases medicinais, materiais hospitalares e outros insumos. A preocupação aumentou com a possibilidade de paralisação de serviços e com a saída de profissionais.
Agora, com a chegada de parte dos recursos e o início do pagamento da folha, a Santa Casa tenta aliviar uma das frentes da crise. Contudo, o abastecimento e a manutenção das equipes continuam sendo desafios, especialmente nos atendimentos de maior complexidade. A direção afirma que os serviços de urgência e emergência permanecem em funcionamento e que pacientes de trauma continuam sendo atendidos, mas a capacidade para demais procedimentos permanece reduzida enquanto o hospital busca recompor estoques e regularizar os pagamentos.







