Mato Grosso do Sul consolidou‑se como o segundo maior produtor de etanol de milho do Brasil, mas o rápido crescimento da capacidade das usinas locais tem gerado novos entraves logísticos e intensificado a disputa pelo grão com a pecuária e a indústria de nutrição animal.
O estado responde por 20,9 % da produção nacional de etanol derivado do milho, com estimativa de alcançar 2,128 bilhões de litros na safra 2025/2026. Desde 2022, aportes privados ultrapassam R$ 4,5 bilhão, distribuídos entre unidades operacionais instaladas em Dourados, Sidrolândia e Maracaju, além de uma planta híbrida em construção em Nova Alvorada do Sul.
Desafio logístico
A expansão das usinas mudou o destino do milho. Na safra 2024/2025, produtores colheram 13,9 milhões de toneladas em mais de 2 milhões de hectares, mas apenas cerca de 2 milhões de toneladas foram enviadas ao mercado externo in natura. Essa retenção interna elevou a disputa com as cadeias avícola e suinícola, que dependem do grão para ração.
Segundo Linneu Borges Filho, analista de Economia da Aprosoja/MS, a presença de usinas no próprio estado cria uma terceira alternativa de comercialização para o milho e pode reduzir a distância percorrida entre lavoura e indústria, diminuindo os custos logísticos. O Valor Bruto da Produção (VBP) do milho subiu 88,1 % em 2025, representando 16,8 % de todo o VBP agropecuário estadual.
Rota Bioceânica
O processamento gera também subprodutos que exigem nova logística. Em 2025, as destilarias sul‑mato‑grossenses produziram 1,4 milhão de toneladas de grãos secos de destilaria (DDG), dos quais 1,15 milhão foram exportados para Vietnã, Turquia, Nova Zelândia e, recentemente, para a China. Para evitar a sobrecarga dos portos do Sul e Sudeste, produtores e indústrias apostam na conclusão da Rota Bioceânica, corredor rodoviário que atravessa o Paraguai até terminais marítimos no Chile, prevista para 2027. O corredor deve encurtar prazos, reduzir tarifas alfandegárias e manter a competitividade da cadeia energética sul‑mato‑grossense.
A maior disponibilidade de milho para a indústria de etanol pressiona a oferta destinada à alimentação animal. Avicultores e suinocultores já enfrentam elevação nos preços da ração, reflexo da competição com as usinas. Caso a infraestrutura de transporte não acompanhe o ritmo de produção, os custos adicionais podem ser repassados ao consumidor final, ampliando a inflação de alimentos no estado.
O próximo passo da cadeia produtiva depende da conclusão da Rota Bioceânica e de investimentos em ferrovias e terminais internos. Enquanto isso, o governo estadual tem sinalizado apoio a projetos que reduzam a dependência do modal rodoviário, que hoje responde por cerca de 80 % da movimentação da safra. A expectativa é que, ao final de 2027, a nova rota permita escoar o etanol e seus derivados de forma mais competitiva, fortalecendo a posição de Mato Grosso do Sul no mercado nacional e internacional.
Além dos investimentos de R$ 4,5 bilhão, as novas usinas criam cerca de 3 mil empregos diretos e impulsionam a cadeia de serviços associados, como manutenção de equipamentos e transporte. Contudo, a dependência de rodovias para 80 % da movimentação da safra eleva o custo logístico, já que o frete pode representar até 60 % do preço final da carga destinada aos portos. A ampliação da capacidade de produção, aliada à necessidade de infraestrutura multimodal, coloca o estado em uma encruzilhada entre crescimento econômico e sustentabilidade logística.







