Moradores de Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, voltaram a enfrentar esgoto transbordando nas ruas e avenidas da cidade. O problema, que se intensifica nos últimos meses, gera mau cheiro, dificulta a circulação e levanta preocupação com a saúde pública. Embora a rede coletora atenda cerca de 99% da população, reclamações persistem em pontos isolados, como algumas vias do bairro da Lapa, onde o extravasamento tem se repetido. A situação tem se agravado nas últimas semanas, coincidindo com o período de chuvas intensas registrado na região.
O incômodo vai além do desconforto. Em áreas onde o esgoto escorre pela via, moradores e trabalhadores relatam dificuldade para manter a rotina e cobram solução definitiva, não apenas reparos pontuais. “Não é fácil trabalhar com esse mau cheiro. Já estamos há um bom tempo com isso. Só aqui nesse ponto eu tenho três anos, fora os 20 anos que fiquei mais embaixo, e é constante esse problema. Já pedimos várias vezes, o pessoal dá uma solução, mas está difícil”, disse o comerciante Marco Antônio Gonçalves. A queixa tem se espalhado também entre motoristas de ônibus, que relatam risco de acidentes ao desviar dos fluxos de esgoto.
Furtos de fiação
Segundo Adilson Bahia, gerente regional da Sanesul em Três Lagoas, uma das principais causas dos extravasamentos é o furto de fiação elétrica nas elevatórias de esgoto. Nos últimos 60 dias, a companhia registrou 61 furtos em nove unidades, apesar de estarem equipadas com câmeras de vigilância e alarmes. “Estamos com um problema sério. Apesar das nossas unidades operacionais serem monitoradas com câmera e alarme, essas pessoas fizeram 61 furtos nesses últimos 60 dias”, afirmou Bahia.
Três Lagoas possui 32 elevatórias, infraestrutura necessária devido ao relevo plano da cidade. Essas unidades recebem o esgoto das bacias e o conduzem até as estações de tratamento, superando a baixa declividade natural. Quando a fiação é furtada, a elevatória deixa de operar até que o sistema seja restabelecido, e uma única unidade pode atender milhares de ligações. Nesse intervalo, vários pontos da rede podem começar a extravasar, como tem ocorrido nas áreas afetadas.
Além dos furtos, o descarte de resíduos sólidos na rede agrava o entupimento e favorece os transbordamentos. O gerente regional apontou que são encontrados cabelos, cotonetes, absorventes e outros objetos que não deveriam ser lançados nos poços de visita. A gordura doméstica, quando não há caixa de gordura adequada, forma placas que obstruem a tubulação, exigindo intervenções de desobstrução frequentes. Esses materiais criam bloqueios que reduzem a vazão, obrigando a abertura de válvulas de emergência que liberam o conteúdo nas vias públicas.
Conexões ilegais
Questionado sobre a possibilidade de a tubulação não comportar o volume de esgoto produzido, Bahia respondeu que essa hipótese não procede. Os projetos de rede e das elevatórias são dimensionados por equipe técnica de engenharia para atender a demanda de cada bacia. A empresa também relaciona parte dos transbordamentos ao volume de chuvas intensas, atribuído ao fenômeno El Niño, e ao fato de muitas residências ainda ligarem a água pluvial à rede de esgoto, prática que o sistema não foi projetado para suportar.
Para mitigar os transtornos, a Sanesul contratou empresa terceirizada que percorre bairros realizando serviços de drenagem nos trechos onde o esgoto extravasa. As elevatórias continuam sob monitoramento por câmeras e alarmes, embora os furtos tenham aumentado. A empresa ainda realiza inspeções mensais nas caixas de visita para identificar obstruções antes que se transformem em transbordamentos. Até o momento, a companhia não divulgou prazo para solução definitiva, e os moradores continuam cobrando que a rede funcione sem novos extravasamentos.
A expectativa da população é que as autoridades municipais e a Sanesul adotem medidas estruturais, como reforço da segurança nas elevatórias e campanhas de conscientização sobre o descarte correto de resíduos e a proibição de ligações de água pluvial ao sistema de esgoto. Enquanto isso, o problema persiste, afetando a qualidade de vida e a saúde dos habitantes de Três Lagoas.








