No Dia de Finados, a psicóloga Deborah Dubner, formada pela PUC‑SP, escritora, palestrante TEDx e especialista em Psicologia Positiva, Neurociência e Ciência da Felicidade, compartilha uma reflexão sobre a saudade e o luto, mostrando como a lembrança dos que partiram pode gerar tanto dor quanto conforto. O texto foi publicado inicialmente no portal RCN67.
Já dizia a canção que “se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi”. Sentir saudade raramente é fácil: pode ser uma dor profunda ou discreta, nostálgica ou cortante, sempre ligada ao passado e à memória de algo precioso que perdemos. Essa emoção pode oscilar entre o sofrimento agudo e um consolo sutil, dependendo do momento e do gatilho que a desperta.
A saudade pode aparecer como um vazio, um buraco que não sabemos como preencher. Algumas perdas deixam perguntas sem resposta, conversas interrompidas e conflitos não resolvidos; outras provocam uma dor tão intensa que as boas lembranças demoram a encontrar espaço. Muitas vezes, o corpo sente a falta como uma pressão física, como se a ausência ocupasse um espaço que ainda precisa ser preenchido.
Não há um modo único de viver o luto, nem um prazo determinado para deixar de sofrer. Ainda assim, a saudade tem camadas agridoce: oferece conforto e a sensação de proximidade com quem partiu, sendo também expressão de amor e dos momentos compartilhados. Cada pessoa estabelece seu próprio ritmo, sem regras impostas por calendário ou expectativa externa.
Memória e presença
Para muitas pessoas, Finados é um dia de visitar cemitérios, levar flores, fazer orações ou simplesmente recordar entes queridos. Para outras, a data desperta a dor da ausência. Cada indivíduo encontra sua própria forma de conviver com a saudade, seja ouvindo uma música, cheirando um perfume, olhando uma foto ou saboreando um prato que remete a alguém. Todos os sentidos podem acionar a memória e encurtar, por instantes, a distância entre passado e presente.
Eu tinha uma amiga muito querida, de 80 anos, que sempre falava sobre envelhecer com sabedoria. Ela contava que sua família era longeva e acreditava que viveria até os 100 anos. Quando recebeu um diagnóstico de câncer, o prognóstico não foi favorável. Nos últimos meses, passei algumas tardes por semana em seu apartamento, tomando chá, ouvindo suas histórias e acompanhando sua dor.
Em uma das visitas, ela me perguntou por que eu a procurava tão frequentemente. Respondi, sem rodeios: “Porque é isso que quero fazer”. Escolhi aproveitar sua companhia enquanto ainda estava aqui, compartilhando momentos com suas filhas e netas, absorvendo histórias que eu desconhecia. A intensidade emocional desse período me surpreendeu, revelando uma conexão profunda que se fortaleceu apesar da doença.
Quando ela partiu, a saudade permaneceu, mas eu me sentia nutrida por aquele amor. A experiência mostrou que podemos sentir tristeza pela ausência e, ao mesmo tempo, alegria ao recordar, sem precisar escolher entre dor e gratidão. A saudade, assim, revela a complexidade das emoções humanas, permitindo chorar e sorrir diante da mesma lembrança.
Convite ao viver
Os vínculos humanos não são eternos, mas são preciosos. Neste Dia de Finados, podemos acolher a tristeza que a ausência provoca e, simultaneamente, olhar para as pessoas que ainda nos cercam, cultivando o amor enquanto há tempo. Viver até morrer, conclui Dubner, é o grande convite que a memória nos oferece, lembrando que o presente ganha sentido ao honrarmos tanto o que se foi quanto o que ainda vive ao nosso lado.
Para quem sente a saudade de forma avassaladora, buscar apoio de um psicólogo ou participar de grupos de apoio pode ser um caminho saudável. A Psicologia Positiva, área de atuação de Dubner, propõe estratégias que transformam o sofrimento em oportunidades de crescimento pessoal, reforçando a resiliência diante da perda.
Assim, o Dia de Finados pode deixar de ser apenas uma data de lembrança para se tornar um momento de reflexão coletiva sobre a finitude, o valor das relações e a necessidade de cuidar da saúde emocional. Ao reconhecer a presença da ausência, a sociedade abre espaço para o diálogo sobre luto e bem‑estar.








