A arara-azul-grande voltou a figurar na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, divulgada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) na quarta-feira, 24 de abril. O papagaio de plumagem azul intensa, símbolo do Pantanal sul-mato-grossense, passou a constar na categoria Vulnerável (VU), status que reforça o impacto das queimadas recorrentes e da degradação de habitats sobre a fauna regional.
A relação atualizada reúne 788 espécies ameaçadas em todo o país. Desse total, 168 estão classificadas como Criticamente em Perigo (CR), 25 como Possivelmente Extintas (CR-PE), 285 como Em Perigo (EN) e 336 como Vulneráveis (VU). O levantamento também confirma nove espécies oficialmente extintas no Brasil.
No caso da arara-azul-grande, os técnicos apontaram perda de habitat, baixa taxa reprodutiva e efeitos acumulados dos grandes incêndios no Pantanal como fatores decisivos para a reclassificação. Segundo o Instituto Arara Azul, responsável por monitorar a espécie há mais de três décadas, a dieta altamente especializada torna a ave dependente de poucas espécies arbóreas, o que agrava os riscos quando o fogo atinge áreas de alimentação e de nidificação.
Levantamentos do instituto mostram redução expressiva no sucesso reprodutivo após os incêndios de grandes proporções registrados nos últimos anos. A destruição de ninhos, ovos e filhotes durante os eventos de fogo é apenas o primeiro impacto; a modificação da estrutura da vegetação e da disponibilidade de alimento persiste por vários ciclos sazonais, comprometendo a sobrevivência dos filhotes e a formação de novos casais.
Embora o Pantanal ainda concentre a principal população mundial da espécie, a repetição de focos de calor tem tornado esse contingente mais frágil. Monitoramentos recentes indicaram diminuição de indivíduos em áreas onde os incêndios de 2024 foram mais intensos, além de queda na quantidade de casais que completaram o período reprodutivo com filhotes.
Para reduzir a pressão sobre a espécie, iniciativas de conservação vêm instalando ninhos artificiais em regiões de Cerrado adjacentes ao Pantanal. Nessas áreas, a oferta de árvores com cavidades naturais adequadas é escassa; as caixas-ninho funcionam como alternativa para estimular a fixação de casais e ampliar gradualmente a distribuição da ave fora das zonas mais suscetíveis ao fogo.
Além dos incêndios, o tráfico de animais silvestres volta a preocupar os pesquisadores. Registros recentes de apreensão de ovos de arara-azul em aeroportos e em pontos de fronteira sugerem mudança na ação dos grupos criminosos, que passaram a priorizar o contrabando de ovos, depois de anos focados em filhotes ou aves adultas. A comercialização clandestina de penas para confecção de adereços também figura entre as ameaças que pressionam as populações naturais.
A lista do ICMBio incluiu outras espécies que ocorrem em Mato Grosso do Sul. O bugio-preto (Alouatta caraya), primata típico de matas ciliares do Cerrado e do Pantanal, entrou na relação devido à redução populacional provocada pela perda e fragmentação de florestas. Já o tamanduaí (Cyclopes rufus), o menor tamanduá do mundo, foi classificado como ameaçado pela primeira vez. A espécie, restrita à Amazônia, enfrenta avanço do desmatamento, da pecuária e da mineração em áreas de floresta, especialmente no chamado arco do desmatamento.
Entre os grupos taxonômicos mais impactados no país, o relatório destaca:
- Aves: espécies como limpa-folha-do-nordeste, soldadinho-do-araripe, bicudinho-do-brejo-paulista e trepador-do-nordeste.
- Anfíbios: diversas pererecas endêmicas da Mata Atlântica e de campos de altitude.
- Répteis: tartarugas e lagartos com distribuição restrita e habitats costeiros ou florestais degradados.
- Mamíferos: muriqui-do-norte, pequenos primatas isolados e morcegos raros.
- Invertebrados: borboletas, besouros e outros insetos endêmicos de áreas específicas.
Os dados atualizados servem de base para políticas públicas, programas de recuperação, criação de unidades de conservação e ações de monitoramento ambiental. A presença da arara-azul-grande e de outras espécies conhecidas no rol de ameaçadas sinaliza a urgência de ampliar o combate aos incêndios florestais, intensificar a fiscalização contra o tráfico de fauna e promover práticas de uso do solo que preservem a biodiversidade dos biomas brasileiros.








