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Escritora de Três Lagoas lança livro infantil que transforma ditados de gatos em poesia

Na manhã de 2 de dezembro, a Feira Literária do Colégio Anglo, em Três Lagoas (MS), recebeu a escritora e jornalista Ana Maria Rodrigues Barbosa, que lançou o livro infantojuvenil Miados de Ditados. A obra converte expressões populares que citam gatos em poemas curtos, humorísticos e de linguagem acessível, com o objetivo de incentivar a leitura entre crianças e adolescentes.

O projeto parte de ditados populares que utilizam o gato como referência – como “gato escaldado tem medo de água” – e os transforma em versos de até quatro linhas. Cada poema é acompanhado por ilustrações que brincam com a oralidade e a cultura da língua falada, reforçando o vínculo entre o texto e o imaginário infantil.

“Eu trabalho ditados populares que falam de gatos. A partir daí, eu faço os poemas, e a ilustradora criou a ilustração fazendo essa brincadeira sobre os ditados populares, sobre a nossa oralidade, sobre aquilo que é cultura da nossa língua”, explicou Ana Maria em entrevista ao RCN Mob, direto do estúdio móvel instalado no evento.

No livro, a autora também procura inverter o olhar negativo que alguns ditados dão ao animal, oferecendo uma leitura mais leve e bem‑humorada. “A gente brinca com isso trazendo outra leitura, fazendo humor, passando pano para o gato”, resumiu.

Projeto literário

A trajetória de Ana Maria no jornalismo ultrapassa três décadas, período em que aprendeu a comunicar com clareza para leitores e telespectadores. Essa experiência influenciou diretamente a escrita dos poemas, que ela descreve como “curtos, concisos e de linguagem simples”. “Eu trago um pouco dessa fluidez, dessa facilidade do texto para a minha literatura. Isso me preocupava muito, porque eu achava que não conseguiria ser literária o suficiente por ser jornalista demais”, afirmou.

Além dos poemas, a autora tem afinidade com microcontos, prática que desenvolve ao longo de toda a sua vida de escrita. “Tem sido um exercício muito legal. Eu gosto muito de escrever microcontos, então isso está sendo englobado, essa prática da vida inteira”, disse.

A estreia literária chegou quando Ana Maria já se aproximava dos 60 anos. Apesar de toda a experiência no jornalismo, ela nunca considerou o livro como algo ao seu alcance. “Eu olhava o livro como uma instituição, como algo muito inalcançável. Embora eu saiba que tenha qualidade como escritora de jornalismo, eu tinha o livro como algo muito longe de mim”, relatou.

A mudança de postura ocorreu no ano passado, quando decidiu se permitir experimentar novas áreas. Enviou textos a concursos, curadorias e editoras; algumas propostas não obtiveram resposta, outras chegaram a fases avançadas, até que recebeu a primeira aprovação. “Quando eu ganhei o primeiro, eu animei. Falei: não, eu já sou escritora, vou ser escritora. Isso me empoderou”, contou.

Publicação independente

A ideia de Miados de Ditados surgiu na época da faculdade, quando morava na residência estudantil da USP e cuidava dos gatos que ali viviam. Uma colega, irritada, disse que o namorado a tratava “como gato e sapato”. A frase ficou na memória da autora, que passou a investigar a presença felina nos ditados populares. A pesquisa resultou em 28 expressões diferentes, número muito superior ao encontrado para outros animais.

A relação da escritora com os felinos é pessoal e duradoura. Autodeclarada “gateira”, Ana Maria tem atualmente cinco gatos e conta que, ainda criança, preferia “pegar gatinhos” a seguir os irmãos nas brincadeiras de colher frutas na casa da vizinha.

Embora escreva crônicas, contos e microcontos para o público adulto, Ana Maria afirma que a literatura infantil é o campo onde deseja concentrar sua energia criativa. Ela lê, pesquisa e compra livros infantis para si mesma, o que tornou natural a escolha de escrever para crianças. “Eu acho que seria natural eu escrever para as infâncias. O infantil é o que eu quero trabalhar mais, é o que eu quero trabalhar para esse público”, declarou.

Sobre o acesso à leitura, a autora observa que as gerações atuais têm mais oportunidades do que a sua própria infância em Três Lagoas, quando os livros eram escassos e o contato se restringia a gibis. Hoje, as opções digitais, as compras online e os diferentes formatos de publicação ampliam o contato com obras, embora ainda falte espaço físico dedicado à venda de livros na cidade.

O livro foi publicado de forma independente, apesar de ter passado por três editoras que propuseram um modelo de remuneração de 10 % sobre a venda e exigiam a compra de exemplares para presentear. Insatisfeita, Ana Maria criou uma pequena editora familiar junto ao filho, onde atua como funcionária e escritora. As cópias de Miados de Ditados podem ser adquiridas diretamente com a autora pelas redes sociais, na Papelaria Contact, em Três Lagoas, ou pela plataforma Uiclap, que oferece impressão sob demanda.

Ao final da entrevista, Ana Maria destacou que Três Lagoas vive um momento importante na literatura local. Autores da cidade estão formando o coletivo “Três Lagoas Tem Literatura”, que tem como objetivo potencializar a produção regional. O grupo organiza uma feira literária de 2 a 5 de dezembro, na Biblioteca Municipal Rosário Congro, com atividades pela manhã e à tarde na quinta e na sexta, além de programação no sábado pela manhã.

O coletivo também está concorrendo a edital ligado à PNAB, buscando recursos para ampliar a feira no próximo ano. “A gente está lembrando que essa cidade é a capital mundial da celulose e tem livro, tem literatura, tem gente escrevendo também”, afirmou Ana Maria, reforçando a importância de fortalecer a cultura local.

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