Em Campo Grande, 95% da população já possui acesso à rede coletora de esgoto. O avanço na infraestrutura sanitária representa uma etapa fundamental, porém não é a única. Após sair das residências, o esgoto percorre uma extensa malha de tubulações, passa por estações de tratamento e retorna ao meio ambiente seguindo padrões rigorosos. Esse ciclo completo tem reflexos diretos na qualidade dos rios e córregos urbanos, além de impactar a saúde pública da capital.
A transição do sistema individual para o coletivo alterou a rotina de milhares de famílias. Durante décadas, o destino do esgoto doméstico foi a fossa séptica. Para os moradores que dependiam desse método, a manutenção exigia custos recorrentes e enfrentava transtornos frequentes quando o reservatório atingia sua capacidade máxima.
Ana Patrícia Alves Vieira, moradora do Jardim Itatiaia, conhecia bem essa realidade. Antes da conexão com a rede pública, ela contratava o serviço de esvaziamento da fossa em média uma vez por ano. O custo do procedimento girava em torno de R$ 300. A moradora destaca que, considerando uma casa com três pessoas, o valor representava uma despesa significativa. Em residências com mais moradores, o impacto financeiro era ainda maior.
“Uma vez por ano, a gente tinha que esvaziar. Pagava, em média, R$ 300. Considerando a minha casa, que só tem três pessoas. Se é uma casa que tem mais pessoas, a família vai ter mais despesas”, relata Ana Patrícia. Há cerca de dois anos, após a ligação do imóvel à rede coletora, a dinâmica mudou. O esgoto deixou de ser armazenado localmente e passou a seguir pelas tubulações do sistema público.
“Agora, a rotina para a gente é ótima, porque a gente sabe que está tudo canalizado, dentro das normas e dos padrões de uma boa questão sanitária, de saúde. Não preciso mais me preocupar em esvaziar a fossa. Quando enchia, tinha que correr, porque ficava tudo entupido e vinha mau cheiro. Agora, não”, afirma a moradora. A mudança eliminou o risco de transbordamentos e odores desagradáveis, garantindo conformidade com as normas sanitárias.
Infraestrutura e tratamento
Com a urbanização acelerada, as soluções individuais deram lugar à necessidade de sistemas coletivos integrados. O saneamento básico não se resume apenas à coleta; depende de um conjunto de serviços que funcionam em sinergia. O processo inicia-se quando a rede pública está disponível na via. A partir daí, o proprietário do imóvel solicita a ligação ao sistema.
Em Campo Grande, a expansão dos serviços ganhou força em 2006, com o programa Sanear Morena. Atualmente na terceira fase, o projeto investiu cerca de R$ 255 milhões nas duas primeiras etapas. Hoje, a rede coletora da capital ultrapassa 3.300 quilômetros de extensão. Segundo a Águas Guariroba, concessionária responsável pelos serviços de água e esgoto, em setembro de 2026, 95% da população contava com cobertura da rede de coleta. A meta estabelecida é alcançar 98% até 2028.
A infraestrutura municipal conta com três estações de tratamento: Los Angeles, Imbirussu e Botas. Juntas, essas unidades possuem capacidade para tratar 1.220 litros de esgoto por segundo. Fernando Garayo, gerente de meio ambiente da Águas Guariroba, esclarece a diferença entre os indicadores de cobertura e de tratamento. A cobertura representa a parcela da população que possui a infraestrutura na porta de casa. O índice de tratamento refere-se ao volume efetivamente coletado e encaminhado às estações.
“O índice de cobertura da rede de esgoto representa a parcela da população que dispõe, na porta de casa, da infraestrutura da rede de coleta. Já o índice de tratamento se refere ao volume de esgoto que é efetivamente coletado e encaminhado às estações de tratamento. Em Campo Grande, é importante dizer que 100% do esgoto coletado é tratado”, afirma Garayo. A distinção é crucial para entender a eficiência do sistema como um todo.
O trabalho não termina na estação de tratamento. É necessário avaliar a eficiência dos processos e as condições do efluente antes de seu retorno ao meio ambiente. Esse acompanhamento inclui a análise da qualidade dos rios e córregos. Em Campo Grande, as análises são realizadas a cada três meses e consideram parâmetros como temperatura, pH, oxigênio dissolvido, coliformes, nitrogênio, fósforo, sólidos e turbidez.
O monitoramento é conduzido por meio do programa Córrego Limpo, que acompanha 83 pontos distribuídos em 21 córregos urbanos da capital. O representante da concessionária destaca a relevância da iniciativa. “É um programa pioneiro. Poucas cidades no Brasil possuem uma rede de análise e de pontos de monitoramento tão robusta quanto o Córrego Limpo”, ressalta. Os resultados, coletados há mais de 16 anos, indicam evolução na qualidade da água.
Em 2010, 60% dos pontos analisados apresentavam qualidade considerada boa. Em 2024, esse índice subiu para 81%. O tratamento do esgoto também gera resíduos, conhecidos tecnicamente como biossólido ou lodo de esgoto. Esse material resulta das etapas de tratamento e exige destinação adequada. Em Campo Grande, o biossólido produzido na Estação de Tratamento de Esgoto Los Angeles, a principal da cidade, é encaminhado para um aterro sanitário licenciado.
Já na Estação de Tratamento de Esgoto Imbirussu, parte do material recebe outra destinação. O biossólido é utilizado em ações de reflorestamento e restauração ambiental. A substância é rica em nutrientes, como nitrogênio e fósforo, e pode ter aproveitamento em determinadas aplicações, desde que atendidas as exigências legais e ambientais. Na estação Imbirussu, o material é aplicado em uma área destinada à recuperação ambiental, integrando o processo de tratamento à restauração da vegetação.
Impacto na saúde pública
A falta de saneamento adequado favorece a transmissão de diversas doenças. A exposição à água contaminada, o contato direto com esgoto, o acúmulo inadequado de resíduos e a proliferação de vetores estão entre os principais fatores de risco. Eduardo Castro Ferreira, pesquisador em saúde pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Mato Grosso do Sul, cita doenças como diarreia, hepatite A, cólera, verminoses e leptospirose. Ele também alerta para a proliferação de mosquitos transmissores de dengue, zika e chikungunya.
“Pela abordagem da saúde única, o problema vai além da saúde humana. A contaminação da água, do solo e dos animais aumenta os riscos sanitários para toda a sociedade. Por isso, o saneamento é um dos investimentos mais importantes para a prevenção de doenças e a promoção da saúde”, explica o pesquisador. Os efeitos do saneamento também se refletem nos indicadores de saúde pública da capital.
Dados da Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande (Sesau) mostram que doenças e agravos relacionados às condições sanitárias e ambientais apresentaram mudanças significativas nos últimos anos. Entre 2011 e 2024, a cobertura de coleta de esgoto na capital passou de 61,3% para 91,1%. No mesmo período, a incidência de internações por diarreia caiu de 2,90 para 1,36 por 10 mil habitantes. Isso representa uma redução de aproximadamente 53%.
Em 2024, foram registradas 2,42 internações por 10 mil habitantes por doenças de veiculação hídrica. A hepatite A teve 153 casos confirmados, após não registrar ocorrências entre 2019 e 2023. De acordo com a Secretaria, nos três últimos anos analisados, não houve registro de mortes relacionadas a esses agravos. Para Eduardo Castro Ferreira, os indicadores de saúde funcionam como um termômetro das condições de saneamento.
“Os dados de internações e de doenças de veiculação hídrica funcionam como um termômetro das condições de saneamento. Quando se observam altas taxas de doenças relacionadas à água contaminada ou ao contato com o esgoto, isso pode indicar falhas no acesso à água potável, na coleta e no tratamento do esgoto ou no manejo adequado dos resíduos”, avalia o pesquisador. A relação entre a ampliação do saneamento e a redução de doenças, no entanto, precisa considerar outros fatores, como as condições ambientais, o acesso à água potável e a infraestrutura de cada região.
A queda nas internações pode indicar resultados positivos dos investimentos, além de representar menos hospitalizações e menor sobrecarga sobre os serviços de saúde. Doenças como diarreia, leptospirose, hepatite A, amebíase e outras infecções intestinais são consideradas importantes indicadores porque muitas estão associadas à exposição a ambientes sem saneamento adequado. O aumento desses casos, especialmente entre crianças e populações vulneráveis, acende um alerta para problemas ambientais e sanitários.
Os dados do Ranking do Saneamento 2026, do Instituto Trata Brasil, ajudam a dimensionar os avanços e os desafios de Campo Grande. A capital aparece na 31ª posição entre os 100 municípios mais populosos do país. Na edição anterior, ocupava o 37º lugar, uma evolução de seis posições. O levantamento utiliza dados de 2024 e considera indicadores de abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto, investimentos e perdas na distribuição.
O estudo registra R$ 1,37 bilhão em investimentos no período de 2020 a 2024 e perdas de 20,69% na distribuição de água. Campo Grande já alcançou etapas previstas no Marco Legal do Saneamento, cujos prazos se estendem até 2033. Segundo as informações apresentadas pela concessionária, esses avanços foram atingidos com oito anos de antecedência. Apesar dos resultados positivos, ainda existem desafios, como combater as ligações clandestinas e ampliar a conexão dos imóveis à rede coletora de esgoto.
A universalização do serviço exige mais do que expandir a rede de tubulações. É necessário garantir que o esgoto seja coletado, transportado, tratado com eficiência e destinado adequadamente. Também é fundamental acompanhar os impactos desse processo nos rios, nos córregos e na saúde da população. O esgoto não desaparece quando sai de casa. Ele percorre um caminho, e cada etapa desse processo faz diferença para a saúde das pessoas e para o futuro de Campo Grande.







